quarta-feira, 29 de março de 2006

Adeus


Eu ainda não aprendi a soletrar adeus
E a poeira da estrada
Muito arranha meus olhos
E o tempo que se solta pra me prender
Não sabe da dor e nem de mim
Esse tempo que sempre antecipa o fim
Esquece-me num sonho sem limite
Onde o amor não é azul
.
Eu ainda não esqueci você
E menino tolo que sou
Peço sempre ao vento
Pra deixar em seu colo flores caindo
E com cantigas amenas
Peço a passarinhos pra te acordar bem cedo
Com algazarras de felicidades
Da brisa peço um beijo
E no meio da noite
Que anjos te visitem
E que seus olhos brilhantes
Seja sempre a cor da aurora transbordante
E assim eu mesmo de longe
Possa te imaginar sorrindo...
.
.
.
.
Gustavo Sinder

Sua Chegada


Hoje golpeou uma brisa nos meus lábios
E eu lembrei seus beijos
Lembrei do raiar doce
Do dia e da boca da noite
.
Hoje o dia frígido
Lembra-me seu abraço
Seu agrado abafado
E seu toque cadenciado pelo ardor
.
E nesses pensamentos
Meu corpo se arrepia
E meus olhos clareiam
A sua chegada
.
E você chega no bico do passarinho
No bálsamo de uma fina flor
Na saudade germinada em lágrimas
E nas loucuras que acenam o amor...
.
.
.
.
.
.
Gustavo Sinder
.
.
(homenagem a um amigo desconhecido,o autor. Homem sensível e apaixonado)

quarta-feira, 15 de março de 2006

Procissão...


Entre alamedas vazias,
Azulejos decorados
De um sacro silêncio,
Rebocos, beirais, vitrais,
Sinos ecoam incomodam o azul,
As ladeiras de pedra
E os homens a seguir o destino em procissão,
As ladeiras de pedra e os homens a seguir,
As ladeiras de pedra tentam a remissão:
Os homens de pedra a seguir vão,
Os homens de pedra,
Os homens, em vão.
.
( do amigo sensível Tonho França )

sábado, 11 de março de 2006

"Chove, de manso, na cidade"


Chora em meu coração
como chove lá fora.
Porque esta lassidão
me invade o coração?
.
Oh! ruído bom da chuva
no chão e nos telhados!
Para uma alma viúva,
oh! o canto da chuva!
.
E chora sem razão
meu coração amargo.
Algum desgosto? - Não!
É um pranto sem razão.
.
E essa é a maior dor,
não saber bem por que,
sem ódio sem amor,
eu sinto tanta dor.
.
.
.
Arthur Rimbaud

ORAÇÃO DA NOITE



Ajoelhada, ó meu Deus, e as duas mãos unidas,

Olhos fitos na Cruz, imploro a tua graça...
Esconde-me, Jesus! da treva que esvoaça
Na tristeza e no horror das noites mal dormidas,
.
Maria! Virgem mãe das almas compungidas,
Sorriso no prazer, conforto na desgraça...
Recolhe essa oração que nos meus lábios passa
Em palavras de fé no teu amor ungidas.
.

Anjo de minha guarda, ó doce companheiro!
Tu que levas do berço ao porto derradeiro
O lúrido batel de meu sonhar sem fim,
.

Dá-me o sono que traz o bálsamo ao tormento,
Afoga o coração no mar do esquecimento...
Abre as asas, meu anjo, e estende-as sobre mim.
.

.
.
Auta de Souza
Macaíba - 3 de Abril de 1899.

Movido a


No teu
umbigo bebo
o suco afrodisíaco,
combustível
que move e
segura
o jogo de
cintura.


Xico Sá

quarta-feira, 8 de março de 2006

O HOMEM E A MULHER



O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez o homem para um trono; para a mulher ,um altar.
O trono exalta; o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher o coração.
O cérebro produz luz; o coração o amor.
A luz fecundo; o amor santifica.
O homem é o gênio; a mulher é o anjo.
O gênio é imensurável,o anjo indefinível.
A aspiração do homem é a suprema glória;
A aspiração da mulher , a virtude extrema.
A glória traduz grandeza,
A virtude traduz divindade.
O homem tem a supremacia,
A mulher, a preferência
A supremacia representa a força
Á preferência representa o direito.
O Homem é forte pela razão;
A mulher é invencível; pela lágrima.
A razão convence, a lágrima comove.
O Homem é capaz de todos os heroísmos,
A mulher de todos os martírios.
O heroísmo enobrece, o martírio sublima.
O homem é o código,a mulher o evangelho.
O código corrige, o evangelho aperfeiçoa.
O homem é um templo, a mulher um sacrário;
Ante o templo nos descobrimos:
Ante o sacrário, ajoelhamo-nos
O homem pensa; a mulher sonha;
Pensar é ter cérebro;
Sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é um oceano,a mulher um lago.
O oceano tem a pérola que o embeleza;
O lago tem a poesia que o deslumbra.
O homem é a águia que voa:
A mulher o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço,
Cantar é conquistar a alma.
O homem tem um farol: a consciência;
A mulher tem uma estrela : a esperança.
Um farol guia, a esperança salva
Enfim o homem está colocado onde termina a terra,
A mulher, onde começa o céu.
(Victor Hugo)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

DESEJOS VÃOS


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!
Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!
E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisa-as toda a gente!...
.
.
(Florbela Espanca)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

do Miguelito Acosta - Hoje resolvi te escrever uma poesia


Gostaria de ser
O Sol para aquecer
O Luar do seu anoitecer
A Brisa do seu amanhecer
A Morada para te acolher
A Fonte para te dar de beber
O Alimento para te fortalecer
O Teu desejo de obter
O Seu mais belo prazer
A felicidade do seu viver
E fazer parte do seu ser
Isso tudo por você
º
do Miguelito Acosta, amigo orkutiano mui dedicado!

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Vendaval



Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles — teu pulso divida
Minh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu penssamento
Para ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!
Fernando Pessoa

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Papel Marché


Cores do mar,
festa do sol
Vida fazer todo o sonho brilhar
Ser feliz,
no teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
Brinquedo de papel marché

Dormir no teu colo é tornar a nascer
Violeta e azul outro ser
Luz do querer
Não vai desbotar, lilás cor do mar
Seda cor de batom
Arco-íris crepon
Nada vai desbotar
João Bosco

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Nossa Truculência


Quando penso na alegria voraz
com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.
Minha falta de coragem de matar uma galinha
e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.
Clarice Lispector

De Ernestina


...también los *perrillos comen de las migajas
que caen de la mesa de sus señores.
Mateo 15, 27 CRUZÓ el *perro la calle.
Era el *perrillo aquel de las migajas,
el que espera debajo de la mesa,
el que no tiene nombre
y al que si se extravía
no lo reclama nadie.
Y era el único ser
en tarde de domingo.
-Allá enfrente la ausencia
de ese árbol que daba su verdor
en un sitio imposible.
Y el perro por la acera
seguro y solitario.
¿A dónde iría hoy
en esta hora muerta
sin coches ni autobuses,
con un pasito breve,
voluntarioso, firme?
Una mano invisible
le alisa la pelambre.
Ernestina de Champourcin

Estrela perigosa


Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é
Clarisse Lispector

Sentimentos


" Como o amor,
o apelo da música é universal.
E seus ritmos expressam todas as estações da alma.
O homem não sabe o que diz
o pássaro ou o córrego,
ou as ondas, ou a chuva.
Mas seu coração percebe
misteriosamente
o sentido de todas essas vozes
que hora o alegram, hora o entristecem."
(Gibran).

domingo, 29 de janeiro de 2006

Angie


Angie, Angie, when will those clouds all disappear
Angie, Angie, where will it lead us from here
With no loving in our souls and no money in our coats
You can't say we're satisfied
But Angie, Angie, you can't say we never tried.
Angie, you're beautiful, but ain't it time we said goodbye
Angie,
I still love you, remember all those nights we cried
All the dreams we held so close seemed to all go up in smoke
Let me whisper in your ear
Angie,
Angie, where will it lead us from here
Oh,
Angie, don't you weep, all your
kisses still taste sweet
I hate that sadness in your eyes
But
Angie,
Angie, ain't it time we say good-bye
With no loving in our souls and no money in our coats
You can't say we're satisfied
But Angie, I still love you, Baby, everywhere I look I see your eyes
There ain't a woman that comes close to you, come on baby, dry our eyes
But Angie, Angie, ain't it good to be alive
Angie, Angie, they can't say we never tried
Rolling Stones

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Lua Adversa


Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vem,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu
Cecília Meirelles

domingo, 22 de janeiro de 2006

Sempre




Nem te vejo por entre a gelosia;
Nunca no teu olhar o meu repousa;
Nunca te posso ver, e todavia,
Eu não vejo outra cousa!

João de Deus

sábado, 21 de janeiro de 2006

Ai! Se sêsse!...


Ai! Se sêsse!...

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

Zé da Luz

Hoje



O que menos quero pro meu dia
polidez,
boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.
Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.

Hoje...
Waly Salomão